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inazuma eleven + depressão + apatia + a higienização do futebol + comunidade é importante

Esse texto contém spoilers de Inazuma Eleven: Victory Road e também do anime de 2008.

Inazuma Eleven Victory Road

Depressão

Desde que eu me conheço por gente me considero uma pessoa depressiva. Sim, desde a infância, desde as primeiras memórias que tenho, acho que sempre tive depressão.

No entanto, lembro do que talvez tenha sido a primeira vez que eu fui confrontada com a ideia de ter depressão.

Quando criança eu gostava muito do anime Inazuma Eleven (ou Super Onze, como ficou conhecido no Brasil). Em um arco do anime, alienígenas invadem a terra e começam a destruir escolas no Japão inteiro. Agora cabe aos protagonistas viajar o país inteiro, recrutando novos companheiros e desafiando os aliens em partidas de futebol valendo o destino do planeta.

A força dos aliens é esmagadora, e parece não ter fim. Os protagonistas perdem, apanham, vários dos companheiros se machucam e ficam hospitalizados. Mas é um anime sobre amizade, superação e mesmo que eles percam de 10 a 0, eles nunca vão desistir.

Instituto Aliea

Essa ideia é personificada no protagonista: Endo Mamoru (cujo o próprio nome é um trocadilho que significa “proteger até o fim”). Ele é esse cara que não apenas nunca desiste, mas está sempre trazendo todo mundo junto com ele, uma pessoa capaz de se conectar com todos através do futebol, alguém que nunca desiste e consegue inspirar todos a sua volta a fazer o mesmo.

No entanto, ao longo de todo esse arco, Endo falha algumas vezes no seu papel. Em um dos episódios, um dos personagens desiste do futebol. Após mais uma derrota avassaladora para os Aliens, Kazemaru (um dos parceiros de time de Endo que estava lá desde o início), desiste e vai embora. Se despedindo com as palavras “Eu não sou tão forte quanto você, Endo”.

Frame do anime em que Kazemaru desiste

Esse episódio por si só já alugou um triplex na minha cabeça de criança com vontade de desistir de tudo, mas foi o episódio seguinte que realmente mexeu comigo na época. Não apenas Kazemaru desiste, mas Endo, ao falhar pela primeira vez no seu papel de capitão, também desiste.

O episódio seguinte inteiro é Endo sentado sozinho no terraço se lamentando pelos amigos que perdeu e pela culpa que sente por não ter sido capaz de fazer algo. O futebol, que antes era um meio de conexão com os outros, agora era um fardo, algo que estava afastando aqueles que lhes eram caros.

Frame do anime em que Endo desiste

Claro que ele supera isso e volta a ser o protagonista enérgico que conhecemos, afinal, a história é sobre isso.

Mas ver uma história infantil abordando essas questões na época foi muito importante pra mim, foi muito importante ver personagens que sentiam coisas que eu também sentia, mas nunca via sendo falado ou abordado em outros lugares.

Eis que pulamos pra 2025 e agora eu sou uma adulta, ainda obcecada por essa série de jogos e animes de futebol com poderzinho feita para crianças. Depois de 12 anos sem um jogo novo da série, um novo Inazuma Eleven finalmente saiu e cá estava eu 100% hypada pra esse momento.

O que eu não esperava é que assim como o anime de Inazuma Eleven falou sobre coisas que a eu de 10 anos precisava ouvir lá naquela época, Inazuma Eleven: Victory Road faria isso novamente, comigo de 26 anos.

Apatia

Em Inazuma Eleven: Victory Road acompanhamos Unmei Sasanami, um jovem do ensino fundamental que odeia o futebol. Ele não aguenta ver nem mesmo uma bola de futebol sem sentir repulsa, e por isso se muda para uma escola que não tem um clube de futebol.

Mais tarde descobrimos que Unmei amava o futebol quando mais novo, porém, ao ser diagnosticado com uma doença no coração descobriu que nunca mais poderia jogar o esporte que tanto amava. Isso destruiu Unmei e ele se fechou para aquilo que amava, para evitar se machucar.

Frame do jogo em que Unmei está no chão abraçando uma bola com a legenda

A jornada de Unmei envolve se reconectar com aquilo que ama, por meio de conexões com outras pessoas. Ao aceitar que nunca será capaz de jogar de novo, Unmei decide seguir no futebol de outra forma: como técnico e líder do time de sua escola.

Aos poucos, Unmei deixa de ser apático aquilo que ama, ressignificando o futebol em sua cabeça, e todo esse processo acontece por meio de pessoas que ele conhece que de alguma forma também se alienaram nesse processo.

Um garoto que deixou de jogar futebol por causa de uma família controladora, um garoto que sofre bullying e não consegue ver valor em si mesmo, um garoto que finge ser quem não é para agradar os outros e uma garota que, depois de se tornar a melhor do Japão em dança, não vê mais graça em dançar.

Unmei, por meio da conexão com os outros, também se conecta consigo mesmo, com aquilo que ele sempre amou mas perdeu.

Os três protagonistas de Inazuma Eleven estendendo a mão para Unmei

O personagem mais interessante dessa história, entretanto, não se encontra no núcleo dos protagonistas. Endo Haru, o filho do protagonista original de Inazuma Eleven, é o grande rival da história. Um gênio do futebol mas que também acha o futebol bastante tedioso.

Minha primeira reação ao ver esse personagem foi de preguiça. Ele meio que é um amálgama de vários clichês que eu detesto. A própria ideia do “filho do protagonista” já é algo que eu não gosto, mas esse clichê do gênio entediado em animes de esporte também costuma ser só um jeito de fazer aquele personagem cool meio babaca. O cara cheio de pose, que é bom em tudo, mas na verdade nem se importa com nada.

No entanto, muito rapidamente percebi o quanto essa história sabia o que estava fazendo. Haru acha o esporte chato não por ser tedioso ou fácil demais, Haru acha futebol chato pois é incapaz de se conectar com os outros por meio dele.

Em um momento, um dos parceiros de time menciona que talvez um dia eles encontrem um rival a altura de Haru e que isso deveria animá-lo. Mas a resposta dele é “Acho que você me entendeu errado. Eu não quero um rival, eu quero amigos”.

Frame do jogo em que Haru diz

Mais pra frente na história, Haru se machuca e talvez nunca mais possa jogar futebol. Naquele momento ele vai atrás de Unmei e diz pra ele que finalmente o entende. E que, apesar de achar o futebol meio chato, agora que ele não pode jogar, ele sente falta. Ele chora e diz como aquilo dói.

Esse momento evidencia que o problema de Haru nunca foi o futebol. Na verdade, ele sempre gostou do futebol, o que realmente era tedioso era não ter com quem jogar, não ter pessoas pra se conectar. E no processo de perder essa conexão com as pessoas, Haru também perdeu a conexão com aquilo que mais amava, assim como Unmei.

Unmei, que entende exatamente como Haru está se sentindo naquele momento, estende a mão e diz “vem comigo, vamos ver a cidade”. O que segue é um dos momentos mais singelos e sinceros da franquia toda. Unmei e Haru saem juntos, vão ver os pinguins em um passeio, tomam sorvete juntos e vão num restaurante comer udon. Nesse momento, Haru finalmente conseguiu se conectar com alguém.

Haru e Unmei em um riacho olhando as tartarugas

A Higienização do Futebol

A escola em que Haru estuda é a Raimon, uma escola conhecida pela sua tradição no futebol. Cheia de equipamentos de alta qualidade, campos extremamente bem cuidados, um centro de treinamento muito bem equipado. A escola que domina o campeonato a anos e vence tudo.

Uma escola que trata o futebol como negócios, como números.

Acho que quem acompanha futebol percebe que nos últimos anos tem acontecido um processo de higienização e elitização do futebol. O capitalismo tá aí pra destruir tudo que amamos, e o futebol não fica de fora disso.

Clubes, mais do que nunca, hoje são empresas. Estádios, antes ambientes da comunidade, do povo, hoje pertencem a empresas e tem nomes ridículos de marcas. Os preços dos ingressos, estão cada vez mais altos. Nossos jogadores, vão embora para a Europa cada vez mais novos. E para algumas pessoas, a emoção se encontra mais em ganhar uma aposta do que torcer para o time do coração.

Esse processo aliena o torcedor, e cada vez mais, o futebol que era um esporte considerado do povo, lembrado por muitos pelos momentos catárticos e ídolos carismáticos, torna-se excludente, frio, e cada vez mais sem personalidade, um esporte que hoje parece pertencer mais a pessoas que, no fundo, no fundo, nem se importam com o mesmo.

Não acho que Inazuma Eleven se aprofunde tanto nesse tema de um ponto de vista social. Mas não deixa de me chamar atenção como toda essa estética da Raimon como o time soberano que muito se aproxima dessa estética elitizada parece estar bastante ligada com a apatia de Haru em relação ao futebol e seus companheiros de time.

Na partida final, Haru chega para ajudar o time e diz que para vencer eles vão precisar dominar uma técnica nova, nunca antes treinada por eles. E a reação de todos time é “é impossível fazer uma técnica que não treinamos”. A Raimon representa esse futebol extremamente técnico, onde é impossível pensar fora da caixa. É impossível improvisar, criar algo novo, apenas o que foi treinado e planejado tem espaço. Um futebol chato, sem espaço para o lúdico. Daí que a apatia de Haru em relação ao esporte se torna completamente compreensível.

Frame do jogo em que Haru diz

Comunidade é importante

Talvez o que mais me fascina no futebol é justamente essa capacidade de conectar pessoas tão diferentes.

Meu avô é um homem de 80 anos, com gostos completamente distintos dos meus. Não consigo conversar com ele sobre videogame, filmes ou música. Nossos universos são muito diferentes, é difícil falar sobre essas coisas.

Desde sempre nossa conexão ocorria pelo futebol. Eu, no início, nem gostava tanto de futebol, mas era o que eu tinha pra passar um tempinho com meu avô. De noite ele chegava do trabalho e sentava no sofá pra assistir um jogo e era aquele momento que eu tinha pra sentar e ficar ali com ele.

Hoje, praticamente todos os nossos papos são sofre futebol. Se não fosse pelo futebol, talvez não teríamos um meio de nos conectar, talvez teríamos nos distanciado com o tempo.

Daí que todo esse processo de higienização e elitização do futebol pode nos alienar e nos tornar apáticos diante do que nós realmente deveríamos estar valorizando no esporte: a capacidade de nos conectar e criar comunidades em volta daquilo que amamos.

Frame do jogo em que Haru diz

Por isso me toca muito ver como Inazuma Eleven: Victory Road, anos depois, soube muito bem pegar essa franquia que eu gosto tanto e trazer essa discussão tão sincera e tão atual sobre esse sentimento que vem pairando na minha cabeça já a um tempo.

Por mais que Inazuma seja sobre futebol, acho que consigo pensar em várias coisas que passaram por esse processo de alienação nos últimos tempos, ao menos pra mim. Coisas que me distanciei ou não tenho mais o mesmo apreço, seja por processos de higienização ativos de grandes empresas, ou mesmo por questões mais pessoais. E talvez caiba a nós buscar essa reconexão, talvez deixar tudo nas mãos de algoritmos não seja a melhor opção.

Aquele anime que 16 anos atrás me fez chorar e pensar sobre o que eu estava sentindo naquele momento, repete o feito anos depois. Sim, é uma história cheia de clichês de anime, poder da amizade e tudo mais, mas ela é exatamente sobre aquilo que precisamos ouvir.

#copa