O Mundo Aberto Tiktok (E Pokémon Legends-ZA)
Esse texto é simultaneamente uma elocubração sobre um termo idiota e alguns pensamentos soltos sobre Pokémon Legends Z-A
Já faz uns anos que eu tenho tentado emplacar um nome para um sub-gênero que está bombando entre os jovens: o Mundo Aberto Tiktok.
E vejam bem, apesar do termo “tiktok” ser usado comumente de forma pejorativa, de forma nenhuma a intenção desse termo é caçoar ou diminuir os jogos que se enquadram neles. O “Mundo Aberto Tiktok” pode ser bom e ruim, assim como todo e qualquer gênero.
Mas então, que porra é um Mundo Aberto Tiktok??
O Mundo Aberto Tiktok é um jogo de… mundo aberto (duh), em que todas (ou quase todas) as atividades que você realiza no jogo são rapidinhas e muitas vezes até pouco significantes. A ideia é que você está constantemente pulando de atividade em atividade, ganhando pequenas recompensas.
Raramente terão longas sequências de história, side-quests complexas, dungeons gigantes ou chefes super difíceis. A ideia é que a graça está mais no loop, na variedade, do que necessariamente no conteúdo em si.
Parece chato? Talvez, mas aí é que vem o twist. Porque apesar do Mundo Aberto Tiktok te pegar inicialmente por essas atividades rápidas e recompensas fáceis, o verdadeiro mérito do sub-gênero se encontra em sua navegação pelo mundo.
Na verdade é um gênero que te engana. Você acha que o prazer está em chegar ao objetivo e realizá-lo, mas na verdade, o prazer estar em ir de um objetivo até o outro. Por isso o gamefeel da travessia desse mundo é extremamente importante para um jogo do gênero.
Ah é? Diz aí três jogos que são Mundo Aberto Tiktok então!
Dá pra dizer que a base do subgênero começa em Zelda: Breath of the Wild.
Apesar de ter sido uma unanimidade crítica na época, com o tempo muitas reclamações surgiram em relação a certos elementos de Breath of the Wild. Uma delas, por exemplo, era sobre o quão simples e repetitivas as Shrines eram.
Você chegava, entrava, fazia um puzzle bobo ou um desafio de combate, recebia uma recompensazinha e só.
E de fato, se você isolar as atividades que são feitas em Breath of the Wild, a grande maioria é meio simples, meio boba e até meio… rasa.
Mas, na época, foi exatamente isso que me fez gostar do jogo. Como eu disse, a graça do Mundo Aberto Tiktok raramente está nas atividades que você realiza em si, por mais que elas até possam ser divertidinhas. O interessante é o como essas atividades se interligam, é o navegar desse mundo. É escalar, é planar, é manejar sua stamina para chegar em um lugar.
No final do dia, sinto que essas missõezinhas mais simples acabam agindo em prol de outros elementos do jogo que, pra mim, são mais interessantes. E esses elementos talvez não brilhariam tanto se o jogo estivesse constantemente me parando pra me contar uma história complexa, ou fazer uma dungeon longa ou vencer um chefe difícil. A simplicidade dos objetivos trabalham em prol de tornar essa exploração mais divertida e engajante, ao menos pra mim.
No entanto, apesar de Breath of the Wild ter sido o pioneiro do subgênero, só dá pra chamar de um subgênero se tiverem outros jogos fazendo, certo?
Olha, saiu muita coisa inspirada em BOTW que eu meio que ignorei. Teve aquele Immortals Fenyx Rising, teve Genshin Impact, teve um monte de coisa aí no meio do caminho que talvez se encaixem na minha definição aqui mas eu não joguei e nem pretendo.
No entanto, em 2022 lançou um jogo que me fez definir esse nome para o subgênero e pra mim é o Mundo Aberto Tiktok em sua mais pura forma: SONIC FRONTIERS (jogaço).
Sonic Frontiers é um jogo de mundo aberto que cheirou pó.
Tu corre por aí, aí tu chega num lugar, aí tu faz um negócio que demora 30 segundos, aí tu ganha um negocinho, aí tu sai correndo voado pra outro lugar, faz outro negócio rapidinho, aí tu corre, aí tu faz umas piruetas, corre nuns loop, faz outro negocinho rápido, ganha uma frutinha, aí tu libera um negócio pra correr ainda mais rápido, aí tu corre e… enfim… jogaço.
Sonic Frontiers é a destilação do Mundo Aberto Tiktok. Se você isolar a maioria das atividades que você faz no jogo, a grande maioria é meio qualquer coisa. Mas irmão… é gostosin demais correr por aí com o Sonic!
Consigo pensar em poucos jogos de mundo aberto que eu goste tanto de explorar como Sonic Frontiers, por mais que as recompensas em si nem sejam tão significantes e as atividades que eu faço não sejam nada demais. É sobre sempre ter uma coisinha nova e diferente pra ver e, acima de tudo, sempre ter um lugar novo pra correr enquanto eu faço umas piruetinhas legais no caminho.
É curioso como, apesar do nome do gênero remeter a essa coisa moderna de estímulos constantes (que sim, está presente nesses jogos), o que me faz realmente gostar do gênero é uma coisa meio primordial dos videogames e que eu sinto muita falta em jogos modernos: o jogar pelo prazer de jogar.
Tanto Sonic Frontiers como Breath of the Wild muitas vezes me lembram jogos de plataforma mais abertos ali da era do PS2. Que tinha um hubzinho aberto pra explorar e era gostosinho de andar por aí e explorar mesmo que não tivesse absolutamente porra nenhuma pra fazer. Era gostoso porque jogar videogame é gostoso por si só (quem diria).
É uma junção de coisas que a princípio parecem até meio opostas. 300 coisas pra fazer no mapa com setinhas e marcações te apontando, com pequenas recompensas instantâneas, mas tudo isso é só uma grande desculpa pra você se divertir apertando uns botões, como nossos antepassados faziam.
Mas e Pokémon??
Pois bem, desde que Pokémon entrou na era Nintendo Switch, a franquia tem se aventurado em ser um jogo de mundo aberto. Mas foi no Pokémon Legends: Arceus que a franquia entrou de cabeça nisso e fez um jogo ABSOLUTAMENTE Tiktok das ideia.
Tu anda por aí, aí tu pega uns bicho, aí tu pega mais uns bicho, aí tem umas batalhas, aí tu pega mais bicho, aí tu escala uma montanha, pega uns outros bicho e aí tu repete isso por umas 80h e acabou o jogo.
Eu até acho que Pokémon Legends: Arceus até pesa um pouco a mão em algumas atividades repetitivas. Capturar 5 vezes o mesmo Pokémon pra completar uma missão era só meio maçante.
No entanto, de novo, existe um apelo em andar por esse mundinho procurando por bichinhos novos.
A travessia aqui é bem menos satisfatória do que nos Zeldas ou em Sonic Frontiers. Eles até tentam fazer algo semelhante a Zelda, com montarias que escalam, correm mais rápido, voam, entre outras coisas. No entanto, o feeling só não bate igual.
A graça de Pokémon, nesse sentido, vai pra um lado muito mais de descoberta. A partir do momento que você bota na cabeça que quer achar todos os Pokémons, qualquer bichinho novo que você acha no mundo já te diverte. Ir em lugares escondidos que antes eram inacessíveis começa a se tornar apelativo. Então por mais que a travessia em si não seja das melhores, Pokémon compensa isso com esse sentimento de colecionismo.
No entanto, justamente por eu não curtir tanto a travessia desse mundo, Legends Arceus nunca ficou marcado pra mim como um ótimo Mundo Aberto Tiktok. Ele é um jogo legal mas que as vezes parece se apoiar demais no conceito de concluir missões a rodo pra te estimular e te viciar mas sem ter muita substância.
Dito isso, eu fiquei viciada e eu me diverti, então parabéns, funcionou. Eu só talvez queria que tivesse algo além disso.
No entanto, enquanto Legends Arceus ao menos entendia que a travessia desse mundo era um elemento importante e tentava trazer coisas interessantes apenas falhando na execução, Pokemon Legends Z-A parece completamente desistir de sequer tentar ter uma travessia interessante.
Tirou o meu mundo aberto me deixando apenas de Tiktok
Pokémon é o Mcdonalds dos videogames. Tá bem longe de ser a melhor coisa que tem, mas existe um elemento familiar extremamente confortável e que me faz constantemente voltar pra ele.
Todo ano lança um Pokémon novo e, todo ano, eu estarei lá no lançamento b̶a̶i̶x̶a̶n̶d̶o̶ ̶a̶ ̶r̶o̶m̶ ̶q̶u̶e̶ ̶v̶a̶z̶o̶u̶ ̶u̶m̶a̶ ̶s̶e̶m̶a̶n̶a̶ ̶a̶n̶t̶e̶s̶ ̶p̶r̶a̶ ̶j̶o̶g̶a̶r̶ ̶f̶e̶l̶i̶z̶o̶n̶a̶ ̶n̶o̶ ̶m̶e̶u̶ ̶S̶w̶i̶t̶c̶h̶ ̶d̶e̶s̶b̶l̶o̶q̶u̶e̶a̶d̶o̶ ̶p̶o̶r̶q̶u̶e̶ ̶d̶e̶u̶s̶ ̶m̶e̶ ̶l̶i̶v̶r̶e̶ ̶p̶a̶g̶a̶r̶ ̶3̶5̶0̶ ̶r̶e̶a̶i̶s̶ ̶n̶e̶s̶s̶e̶s̶ ̶j̶o̶g̶o̶s̶.̶
Sim, eu estava extremamente animada pra Legends Z-A. E eu não tava esperando muito não. Eu só quero andar por aí, pegar os bichinhos que eu gosto, comprar roupinhas bonitas, tirar umas fotos legais e andar pelo mundinho pegando mais bichinhos.
E sim, o jogo é basicamente isso e eu estou me divertindo e feliz com meus bichinhos.
Tirando isso da frente, me chamou atenção como esse jogo falha bem mais em criar esse sentimento de: caramba, como eu gosto de estar nesse mundinho.
Com Scarlet/Violet e Legends Arceus eu jogava 10h por dia e ia dormir querendo mais. Nesse aqui, eu jogava umas horas e já me batia uma canseira. De repente essas atividades repetitivas que antes eram um ponto forte pra mim, agora pareciam mais burocráticas.
A primeira coisa que me chamou atenção é o quanto a estrutura e o loop do jogo são bastante segmentados. Acho que parte do que torna o gênero legal pra mim é que, quando eu estou indo do ponto A ao ponto B, eu normalmente vou encontrar várias pequenas atividades interessantes nesse caminho.
Em Zelda, quando você está indo de uma Shrine para outra, você vai esbarrar em um korok, ou um chefe que você não tinha visto, ou em um npc com uma side quest ou até mesmo em uma outra Shrine escondida.
O Legends Z-A tem uma decisão bastante esquisita de meio que dividir essas seções em momentos muito específicos do jogo. Sim, as atividades são simples, rápidas e variadas, mas a maneira que elas estão dispostas no jogo torna a exploração bastante desinteressante.
A maioria dos pokémons selvagens não estão espalhados por todo o mapa, eles ficam separados em áreas específicas que você vai entrar, capturar pokémons e mais nada. Depois que você captura todos, você sai e não precisa mais retornar ali.
As batalhas contra treinadores acontecem também em áreas muito específicas, apenas durante a noite. Você entra, faz umas 10 batalhas seguidas, sai e vai fazer outra coisa.
As batalhas contra as mega evoluções não spawnam de forma orgânica no mapa, vai ter um momento da história em que elas estarão disponíveis e aí você vai lá e faz.
É muito raro acontecer de você estar indo de um lugar para o outro e esbarrar em algo interessante no caminho. Tudo está segmentado e separadinho, tudo tem a hora certa de ser feito.
Isso faz com que o jogo seja estranhamente guiado. Vai ter o momento de batalhar contra treinadores, o momento da boss fight, o momento de capturar Pokémons. O que, pra mim, é muito mais desinteressante do que descobrir e me distrair com coisas enquanto eu exploro um mundinho. Esse elemento de descobrir coisas novas enquanto vai de um ponto até o outro se perde completamente.
Isso afeta toda a sua forma de explorar esse mundo, de se relacionar com ele. Eu, pessoalmente, quase não ando no mundo. Eu vejo onde tem uma missão, eu dou fast travel até lá, eu faço o que eu preciso fazer, e aí eu dou fast travel pra próxima.
É um jogo cheio de atividades simples, meio sem graça e sem muito significado mas que, por algum motivo, decide cortar todo o momento a momento entre essas atividades que é justamente o que torna esse tipo de jogo interessante.
Pra piorar, o ato de andar por esse mundo é bem desinteressante. Não tem pokémon moto, não tem pokémon que escala, não tem pokémon que voa.
Você anda. E meio que só, porque nem mesmo um botão de pulo existe. Então o ato de navegar por esse mundo é puramente burocrático. Enquanto nos outros jogos citados, o navegar pelo mundo é o apelo, nesse aqui é justamente o contrário.
Você anda pra chegar nos lugares, mas o caminho até esses lugares é absolutamente desinteressante. No final, ao aceitar a mediocridade da navegação pelo mundo, o jogo escancara o quão desinteressantes todas essas partes são.
São as exatas mesmas atividades que tinham no Legends Arceus e no Scarlet/Violet, mas dessa vez elas parecem mais tediosas do que o normal, porque a forma que elas me foram apresentadas é meio sem graça, meio sem sal.
No final é isso que me fascina sobre o gênero do Mundo Aberto Tiktok. São jogos que giram em torno dessa grande variedade de pequenas coisinhas para se realizar nesses mundinhos, mas a verdadeira graça deles está mais no que acontece entre essas atividades do que nas atividades em si. As vezes o mais interessante é mais o COMO chegar no lugar do que o chegar no lugar de fato.
Pokémon Legends Z-A, no entanto, não parece ter a mesma interpretação que eu em relação a isso. É um jogo de mundo aberto em que você praticamente não precisa andar pelo mundo, apenas abrir o mapa e clicar em um ponto de fast travel pra chegar logo no próximo objetivo.
No fim do dia, apesar de Legends ZA ser o jogo mais bonito e mais bem polido da franquia no Switch, eu ainda me diverti mais com o Scarlet/Violet rodando a 10fps simplesmente porque: motinho que voa muito foda.